Quando se fala em fetiche, a primeira coisa que vem à cabeça é o sentimento de desejo. Muito atribuída ao sexo, a palavra proveniente do latim facticius está em todas as coisas, em todos os lugares. Na música, há diversos tipos de obsessão. A mais pop delas, e a que vem movimentando o mercado fonográfico no Brasil, é aquela que diz respeito aos discos de vinil. Atropelados pelos Compact Discs na década de 90, eles sumiram das prateleiras e viraram elefantes brancos para os menos materialistas. Os fetichistas que não se desfizeram das suas bolachas e ameaçaram sofrer com o fim da produção de Long Plays no país voltaram a sorrir em 2009, quando os proprietários da gravadora nacional Deckdisc compraram e reativaram a Polysom, a única fábrica de discos de vinil da América Latina.
“É difícil afirmar que apenas um sentimento une todas as pessoas que gostam de vinil, mas arriscaria dizer que a qualidade do som, a beleza da capa e a deliciosa experiência de se colocar um disco no prato e a agulha para tocar é que fazem a diferença. O vinil é fundamentalmente uma experiência tátil, visual e auditiva. Manusear as quase 200 gramas do disco nas mãos, colocá-lo no toca discos, observar magníficas artes estampadas em 31x31cm (contra os 12cm do CD), ler o encarte e a contracapa, trocar de lado e ainda ouvir um som que tem vantagens cientificamente comprovadas sobre qualquer som digital, tudo isso faz com que o vinil seja encarado como um fetiche, um objeto de desejo”, explica João Augusto, presidente da Deckdisc.
Fundada em 1999 no município de Duque de Caxias, Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, por Nilton Rocha, que já tinha experiência em outras fábricas de discos de vinil, a Polysom foi estruturada com sobras do maquinário de gravadoras como Polygram e Continental, que foram desativando aos poucos suas indústrias. Sem conseguir cumprir prazos, garantir qualidade e tendo que lidar com cancelamentos de pedidos e a falta de demanda, em 2007, Nilton fechou a Polysom. Os fetichistas ficaram órfãos. Percebendo o aumento da procura pelos discos na Europa e nos Estados Unidos, João Augusto reativou o espaço e um dos primeiros que lançou foi o da cantora Roberta Campos, “Varrendo a Lua”. Fetiche para quem viveu a década de 80, o álbum “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs, também foi reeditado, assim como “África Brasil”, de Jorge Ben Jor, e “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, do Ultraje Rigor.

João Augusto, Presidente da Deckdisc - foto por Daryan Dornelles
“Há uma demanda comprovada, a todo momento aparece alguém querendo comprar ou produzir vinil. Muitos artistas e gravadoras, não só do Brasil, mas de toda a América do Sul, querem lançar seus trabalhos no formato. A reativação da Polysom é uma contribuição para que a cultura do vinil não esmoreça por falta de oferta. A demanda começa pela própria Deckdisc, que teve suas atividades bastante prejudicadas com o fechamento da antiga Polysom. Paralelamente, nosso networking apontava vários selos e artistas querendo lançar projetos em vinil. E hoje a fila já é grande”, acredita João Augusto.
A Polysom produz Compactos de 7 polegadas e Long Playings de 12”, com 140, 160 ou 180 gramas. A gramatura não influi na qualidade, uma vez que a profundidade e a largura dos sulcos serão sempre as mesmas. Os DJs preferem os mais leves para que suas mochilas e malas de transporte não fiquem tão pesadas. Para o presidente da Deckdisc, há três tipos de público-alvo: o chamado público ativo, que fala e briga pelo vinil com garra; um público que não se manifesta por falta de oferta; e o público que está conhecendo ou quer conhecer o formato. Ele acredita que este último deve se apaixonar:
“Ainda estamos localizando qual é o maior público por aqui, mas engana-se quem pensa que são apenas velhos saudosistas. Há uma galera enorme querendo saber, comprar, ouvir”, diz o presidente da Deckdisc. “Não encontrei nenhum cético com relação ao vinil. Pelo contrário, só encontro entusiastas. Uma vez, esbarrei com Lenine num evento. Ele olhou pra mim com os olhos esbugalhados e perguntou: ‘É verdade que vocês vão reativar a fábrica?’ Fiquei preocupado com a responsabilidade.”
Em 2008, Lenine mandou produzir no exterior uma tiragem limitada de seu disco “Labiata” em vinil. Também são recentes as edições de “4”, do Los Hermanos, do LP “Maria Gadu” e de “Chiaroscuro”, de Pitty. Devido ao pequeno número de exemplares prensados, os preços são exorbitantes. Para o vinil deixar de ser fetiche e voltar a atingir a massa, só falta agora uma reavaliação dos valores:
“Hoje, em razão de impostos escorchantes e custos extraordinários, achamos que o vinil no Brasil deverá ser tratado como algo artesanal, um deleite. Nosso plano era popularizar o produto, mas o governo, com sua voracidade, não deixa. É uma pena. Nossas outras apostas são as de sempre: boa música, bons artistas, bons produtos.”
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