Markusic
For the kids
por Christina Fuscaldo
01.02.2012
Inspirados por Vinícius, Chico e Calcanhotto, irmãos gaúchos Kleiton & Kledir dedicaram ‘Par ou Ímpar’ às crianças
A música também sempre teve momentos de “fofidão”. É verdade. Quem não achou fofo, na década de 80, Raul Seixas gravar “Carimbador Maluco” junto com o Balão Mágico? Eu, não, porque eu era bem pequena naquela época… Mas meus pais contam que foi uma brecha na vida louca do maluco beleza. Não faz muito tempo que a moda de músico adulto se dedicar à criançada voltou. E não foi um ou dois que gravaram uma ou duas canções dedicadas aos pimpolhos. Grandes nomes brasileiros voltaram ao jardim de infância e fizeram verdadeiras obras de arte infantis. Primeiro, foi Adriana Calcanhotto, com seu “Partimpim”. Depois, vieram Pato Fu, Arnaldo Antunes, Kleiton & Kledir… A banda de Fernanda Takai e John Ulhôa gravou “Música de Brinquedo” usando apenas instrumentos infantis. “Pequeno Cidadão” traz músicas compostas pelo ex-integrante dos Titãs e por Edgard Scandurra, Taciana Barros e Antonio Pinto para seus filhos. Já os irmãos gaúchos sentiram-se estimulados pela tradição de músicos brasileiros dedicarem canções às crianças e lançaram o álbum “Par ou Ímpar” recentemente.
“É uma novidade na carreira, mas a vontade era antiga. Ficamos entusiasmados quando Vinícius de Moraes lançou ‘A Arca de Noé’. Depois, o MPB4 fez discos infantis (“Flicts” e “Adivinha o que é”). Existe essa tradição na música brasileira que vem desde Braguinha, passou por Chico Buarque quando ele fez ‘Os Saltimbancos’ e andou esquecida. Resgatada por Adriana, Arnaldo e Pato Fu, essa tradição serviu de estímulo pra gente”, conta Kledir.
Saiba mais sobre “Par ou Ímpar”:
Vocês compunham quando eram crianças?
KLEITON: Foi muito emocionante fazer esse disco, porque a gente voltou a ser criança. O mais especial, pra mim, foi gravar “A Bruxa”, porque essa foi a primeira música que eu fiz quando criança. Eu tinha uns dez anos. Gostava de cantar em casa e meu pai dizia que eu ia ficar famoso quando cantasse essa. Estudava violino desde os nove e Kledir estudava violão e me ensinava a tocar. Foi o instrumento que usei para compor. “A Bruxa” foi gravada praticamente da mesma forma como foi composta, com pequenas modificações.
Depois da fama, vocês chegaram a dedicar música para alguma criança?
KLEDIR: A gente compõe muito junto. Mas “Lindinha”, fiz sozinho quando minha filha nasceu. Eu tinha o hábito de contar histórias clássicas para Júlia, mas não conhecia muitas canções de ninar. Quando ia colocá-la para dormir, batia no bumbum fazendo ritmos, inventava letras e misturava com mantras improvisados. Até que saiu “Lindinha”, que eu nunca tive intenção de gravar.
Vocês acham que as crianças de hoje consomem música infantil?
KLEDIR: Eu vivia com aquela saudade boa de um tempo que passou. Escrevi uma letra, fui pra casa do Kleiton e disse a ele: “As crianças não brincam mais na rua.” Mas nos demos conta de que elas brincam, sim. Descobrimos que algumas brincadeiras ficaram datadas e outras se relacionam bem com a tecnologia. Todas as gerações gostam de bolinha de sabão. Mas não íamos escrever nada sobre Playstation, porque isso é uma coisa que pode sair da moda.
A infância de vocês foi inspiradora?
KLEITON: O Kledir acha que foi uma maravilha, mas eu digo que passei por coisas ruins também. Brigas de rua me deixaram algumas paranoias como sequela. Sou mais velho que ele, por isso a barra pesava sempre pro meu lado. Fomos criados nas ruas de Pelotas, que tinha ares de cidade do interior. Tinha aquele cara que batia em todo mundo. Teve um dia em que uma gangue me parou querendo trocar figurinhas. De repente, eles pediram todas as minhas figurinhas. Eles pegaram paus, pedras e correntes e roubaram tudo. Fiquei muito chateado. Uma vez, com 16 anos, levei um tiro de raspão de uma mulher maluca que não queria que jogássemos futebol na frente da casa dela. Minha infância foi ótima, mas ficávamos muito expostos, porque era tudo muito livre naquela época. Hoje, as crianças ficam mais protegidas dentro dos apartamentos. Por outro lado, fomos muito criativos. Fazíamos carrinho de rolimã na fábrica de móveis do nosso avô, fazíamos estruturas para construir nosso próprio Autorama… Era romântico. E, se não tivéssemos tido aquela infância, não teríamos nos tornado criadores.
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